Um pesadelo, ou melhor, o pesadelo. O que mais repetiu-se na minha mente durante toda a minha vida. Era noite, estava num teatro, grande, clássico, observava o circo do andar de cima. Tudo maravilhoso. Mas eu estava angustiada com alguma coisa que eu não consigo me lembrar o que era. Estava meio triste, pra variar. Cansada de assistir aquele ridículo espetáculo me dirigi ao banheiro. Estava de gala, salto alto, vestido longo. Eca. Bom, continuando, fui ao toalete e me olhei no espelho, vi um rosto sem alma, parecia que tinha sido sugada. Isso era bem normal pra mim, então fui lavar o rosto pra ver se a água me livrava um pouco do meu mal humor. Ouvi gritos.
Gritos de pavor, de suplício, de morte. Meu coração simplesmente parou, fiquei muito preocupada, saí correndo pra ver o que estava acontecendo. No corredor sem fim ouvia os meus passos barulhentos porcausa do salto alto. Os gritos ficavam mais intensos. Cheguei e era como ver o inferno na minha frente. O teatro inteiro estava pegando fogo, procurei rapidamente pelos meus pais, não estava os achando, e o desespero me dominou. Virei outra pessoa, como um monstro. Meu amor conseguiu virar meu caráter. Corri demais, o segundo andar estava prestes a desabar, com fogo por todo o lado, era difícil respirar. A neblina foi aumentando, e não conseguia enxergar mais nada. O ar foi acabando, meu pulmão inflava procurando ar fresco, já estava contaminada, nos meus passos, fui perdendo a força, era como se a morte estivesse puxando o meu pé com toda a força.
Caí no chão. A madeira me pareceu o leito perfeito, só consegui pensar em como disperdicei a minha vida. Disperdicei com inutilidades, pensamentos revoltosos que não chegavam em lugar algum. Fui uma idiota esse tempo todo, e agora eu não poderia mais viver tudo o que eu tinha pra viver. O meu coração foi desacelerando, já tinha até esquecido de como se respirava. Olhei pro lado pra esperar que a morte me levasse, e vi uma pessoa me chamando. Eu só podia estar delirando, não era mesmo possível que alguma pessoa ainda estivesse viva lá. E ele foi chegando mais e mais perto, os gritos eram inauditíveis, mas eu podia apenas imaginar como eram.
O segundo andar, que era aonde eu estava, desabava, quando eu perdi o meu chão. Perdi mesmo, mas não caí, eu estava sendo carregada por alguém. Não sei como aconteceu, só consegui dizer quatro palavras: ache os meus pais. depois disso tudo ficou negro.
Abri meus olhos e ainda estava deitada na minha cama. Levantei pra ver se eu e meus pais estavam bem, e estavam. Fiquei meio esquisita mas voltei a dormir.
Esse sonho se repetiu pelo menos umas 15 vezes na minha vida toda.